terça-feira, 30 de junho de 2026

Sobre a contiguização da política e sobre como talvez estejamos discutindo a coisa errada...

    Há algum tempo venho pensando sobre uma coisa que me incomoda na forma como acompanhamos a vida pública. Digo acompanhamos porque talvez o problema não esteja apenas naquilo que os agentes políticos fazem ou deixam de fazer, mas também na maneira como nós, enquanto sociedade, passamos a consumir esse universo. Não que eu esteja falando de algo novo, não é disso que se trata. Desde a democracia ateniense já existiam disputas por influência, acusações públicas, preocupação com reputação e tentativas de conduzir a opinião coletiva. Talvez a política sempre tenha carregado essa dimensão teatral. O que me chama atenção é a forma específica que isso parece ter assumido nos nossos dias, particularmente, no Brasil.

    Eu costumo chamar esse fenômeno de contiguização da política. Uma referência à antiga revista de fofocas Contigo, porque tenho a impressão de que transformamos a esfera pública em uma grande revista de celebridades, em que os personagens são constantemente apresentados, julgados, defendidos e atacados. Temos os heróis, os vilões, as revelações, os escândalos, as grandes reviravoltas e, principalmente, a torcida.

    Antes que o leitor interprete essa reflexão como uma tentativa de minimizar a importância da corrupção, preciso deixar claro que não é disso que tô falando. Desvios de recursos públicos existem, prejudicam pessoas reais e precisam ser investigados e punidos. O problema parece estar em outro lugar: na maneira como esse tema passou a ocupar um espaço, a meu ver, desproporcional no imaginário coletivo, tornando-se quase a principal lente através da qual olhamos aqueles que ocupam cargos públicos.

    Talvez a pergunta mais interessante não seja apenas quem fez algo errado, mas quem sabe fazer algo certo. Porque um país não se transforma apenas pela descoberta dos culpados. A responsabilização é necessária, mas ela não constrói, por si só, instituições melhores. O desenvolvimento de uma sociedade depende também de capacidade administrativa, de boas decisões, de pessoas capazes de compreender problemas complexos e criar soluções que produzam resultados. Mas essa parte parece menos atraente.

    Uma investigação, uma denúncia ou um escândalo possuem uma força narrativa imensa. Háconflito, tensão, a sensação da revelação. É uma história que prende atenção. Já discutir produtividade, desenho institucional, qualidade da gestão pública ou planejamento de longo prazo exige outro tipo de envolvimento. Não existe um vilão evidente. Não tem cena final com explosão e herói com cara de missão cumprida

    Talvez por isso pareça existir uma convergência de interesses entre mídia e política nesse modelo. Não acredito que exista uma grande sala em que jornalistas e políticos sentam juntos para decidir como manter a população distraída. Essa é uma ideia estúpida, pueril. Mas alguns entes da mídia parecem ter razões para privilegiar aquilo que desperta atenção. Conflitos, acusações e disputas morais geram audiência. Isso não significa que todo profissional da imprensa esteja agindo de maneira desonesta ou que toda investigação seja apenas espetáculo. Muitas pessoas realmente acreditam estar cumprindo uma função importante de fiscalização. Porém existe uma estrutura de recompensas que parece favorecer determinados tipos de narrativa em detrimento de outros. Na política acontece algo semelhante. É muito mais fácil mobilizar pessoas apresentando um adversário como inimigo moral do que explicar uma reforma complexa ou defender uma mudança institucional de longo prazo. Uma acusação gera emoção. Uma proposta demanda compreensão. Uma disputa cria torcedores. Uma solução, cobrança. E talvez exista ainda outro elemento nessa equação: nós, o público.

    Parece haverb uma demanda grande por esse tipo de conteúdo. A política deixa de ser uma discussão sobre escolhas e caminhos possíveis e passa a funcionar como uma disputa de identidades. As pessoas não defendem somente ideias; defendem grupos, símbolos e aquilo que passou a representar quem elas são. O outro lado deixa de ser apenas alguém que pensa diferente e passa a ser alguém que precisa ser vencido. Nesse ambiente, a corrupção se torna uma ferramenta extremamente poderosa porque transforma uma discussão complexa sobre gestão, prioridades e resultados em uma batalha moral. A pergunta deixa de ser "qual proposta parece mais eficiente?" e passa a ser "quem está do lado certo?"

    Acho que esse é o grande problema da contiguização da política. Ela mantém as pessoas permanentemente mobilizadas, mas parece direcionar essa energia para conflitos simbólicos, enquanto questões concretas continuam aguardando respostas.

    O mais curioso é que aqueles que possuem maior capacidade de alterar essa dinâmica são justamente aqueles que mais parecer ter aprendido a operar dentro dela. Existem pessoas inteligentes e bem-intencionadas na política e na mídia, isso é evidente. Existem pessoas interessadas em discutir soluções reais. Mas parece que o próprio ambiente recompensa mais aqueles que dominam a lógica do espetáculo do que aqueles que tentam substituir essa lógica.

    Isso, a meu ver, gera algumas perguntas simples, mas cada vez mais difíceis de se ouvir: Quem sabe construir? Quem sabe administrar? Quem sabe transformar ideias em realidade?

    Talvez o maior desafio não seja apenas descobrir quem é o próximo personagem da novela, mas perceber que, enquanto continuamos acompanhando os capítulos, escolhendo lados e esperando a próxima revelação, estamos deixando de perguntar quem realmente sabe escrever uma história consistente.